quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

A luz de sempre

óbidos

a luz o canto da treva

semeia de claridades soltas

o chão e as paredes da minha aldeia íntima

é lá que vivo a perdição

em quietude e alegria aconchegante

não tenho nada para além disso

limito-me a ser um pastor sem rebanho

com vales e montes na memória de estar vivo

e a ideia do fim da terra

em rebordos de impossível

como estrela

que aponta a direcção

do improvável

sábado, 7 de Novembro de 2009

numa tarde, amanhecia

Às vezes a realidade é um cenário

Vibra com as emanações do íntimo

Até as pedras assumem um semblante

Cheio de sentimento e contrário

À ideia que formamos de que as pedras

Estão petrificadas para sempre

O amor transfigura tudo

Talvez por não ser mais que o nosso estado primitivo

Nada surge separado

É umbilical a distância que une todas as coisas

É abissal a treva de termos nascido

O encontro nada mais é do que abrirmos os olhos

E vermos que sempre estivemos no terreiro da infância

Sempre fomos em unidade e afastamento

Porque o universo está em expansão

Mesmo do lado de dentro

Mesmo que nos consideremos pequenos

Na ínfima majestade que o infinito em nós assume

Por isso uma a vida alada se resume

A pouco mais que um momento de contemplação

Lume breve sopro sem de onde

Festiva excedência

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

na fronteira do fim

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Olho e escuto

A treva é o adiamento da luz silente

Não tem fim a quietação dos medos

No rebordo do colapso

Do instante

Da semente que brilha na lâmina do agora

A cortar o couro violáceo da espera

O sangue da criatura eterna que chora

O começo do mundo

Cai em grãos de outros começos

No Abril que se abrir se for possível

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

força



















Força irmão

Como pode o universo não acreditar em si próprio

Como pode a vida não ser sempre mais do que a simples continuação

A comunicação dos elementos subtis de que são feitos os sonhos

Faz-se sem distância ou descontinuidade

No centro do coração a imensidade é chama e aventura

A vida é para ser levada sem impostura

E o amor agiganta quem o vive mesmo que muito próximo do chão

Não precisa de asas quem se dá por inteiro

Onde estiver é mais alto

Onde estiver é o centro

Onde estiver é o aqui sem fronteiras

Onde estiver não há pobreza nem desolação

No mais alto

Olhos nos olhos com todos os que são pessoas

Bichos ou homens ou seres de além

Do mais fundo do que não anoitece nem amanhece

Do que dá à luz a luz da luz

O Alvorecer permanente

sábado, 22 de Agosto de 2009

...




na brevidade
dança leve solta aquática
a atenção desalma-se e entranha-se
rasga-se o véu do contentamento
é sem sombras adversas o esquecimento
a frescura do chão inundado de tristeza
a fechadura do coração levantado de firmeza
a abertura da contemplação que alucina
magnética atracção do impossível

sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

era uma vez



era uma vez
o verde antigo dum sonho irlandês
todo segredado no nevoeiro de ter as mãos vazias
na planície desamparada da escrita
estendido em tapeçarias de não ter sido
para receber o luar nas noites de solidão
aí todas as fadas
se deixam conduzir ao Íntimo que acredita
na realidade das fadas
e de tudo o que de impossível
nos vem do mais fundo

o sol em ti


o sol em ti
é um luzeiro que me intensifica a palpitação dos dias
rutilante cantilena do entardecer
no coração no centro do céu de não ter limites
a lonjura e a saudade
em que te vejo assim
mergulho e salto para além
adolescente da treva
com trinta e um anos e toda a eternidade que isso tem
criança de luz
a brincar nas areias da praia de Heraclito

sexta-feira, 24 de Julho de 2009

derrota na luz



é na exalação das preces
respirar de tudo no Íntimo
que a luz incombustida de além
desce sobre as feridas de ser poeta
rotunda negação da plenitude
rasgura em toda a extensão de não ser
e na ardência da incompletude
desabrocham em mim asas
para me erguer nos céus sem mácula
auroral criatura do Longe
monge do secreto e do depois
canto desfeito em lâminas de prata e agonia
a sagração da terra e da brevidade
saudade do que não passa
cravada na pele fátua das coisas
lento o mosto em que me mostro decomposto
desgosto de ser mais doce a vida que o esperado
eterno enamorado em perdição arrastado
pelas estradas sem um destino para além do traçado
consumado na impossibilidade dum fim
que pudesse transformar em chegadas as derrotas

domingo, 28 de Junho de 2009

o Sol em sol




na luz
o azeite das noites de espera de chama suave
derrama-se doirado de ontem
e as coisas ganham a suavidade dos testemunhos irrepreensíveis
tudo o que sou é um ícone da alma em que fui chama
só quero o esquecimento e a alvura do sem nome
a frescura umbrosa do silêncio
a patente dissolução das evidências
é uma oração de sílabas agrestes
a ruminância da terra na absolução do estio
agora que nada tenho
o mundo é um campo aberto
um ponto de partida

domingo, 31 de Maio de 2009

Flores de Luz



floresce de dentro
a luz que se faz pranto e espaço e claridade enaltecida
rubificação do esquecimento
a perdição derramada em perfumes de Tebas
as trevas são o húmus do jardim

domingo, 24 de Maio de 2009

pela luz



pela luz
a cegueira aquosa de ser alguém
sobe e dissolve-se no ar vazio
hálito de depois
o que resta dos anseios o que fica da ilusão de ser até ao fim
é sem sofrimento a dor mais funda
a disslução da incompletude

segunda-feira, 18 de Maio de 2009

botão de tudo



uma flor por desabrochar
tem em si a força da primeira flor
a rasgar a indefinição dos tempos do princípio
no oceano sem margens da noite imperitura
o seu perfume nunca acontecido
tem em si a vaporosa mescla das Samarcandas do porvir
o almíscar das mulheres da Babilónia de todas as perdições
as primaveras e o odor calcinado do post mortem do que já foi belo para nunca mais
uma lágrima
uma fugaz tentação de infinito
frágil tecido de silêncio e brevidade

lonjura



ali o paraíso ali onde os pássaros parecem feitos só de som e de luz
ali no aquém de todas as partidas
a partitura de não ter sido
a alvura da noite que não passa
a completude no desabrochar interior da pele
seres do avesso alados cumpridores do não ser
ali no útero cronológico do esquecimento
tão perto e tão colapsado do aqui
o paraíso
tão irrealizável que se
que se lhe sentem todos os odores na lassidão do vento

na janela de Julieta o sorriso umbroso de Ofélia



para dentro da tua janela vejo
o reverso da cegueira com que me revisto de escuridade
o céu habita o dentro da saciedade
de antes de teres nascido
a imensidade sempre fora do querer
a calamitosa ondulação das águas
a semear inquietação nos recantos desolados do silêncio
o frio de lâminas ausentes feito
crava-me no peito a ausência do fundo
nem voz nem fechamento no significado da escuta
apenas a consumação inicial do depois

domingo, 17 de Maio de 2009

profundeza



um gomo de luz
estatelado na garganta do visto
uma unção de pétalas no sem nexo do tempo
mudo assomo dum divino infantil
derrota do decálogo na impossibilidade do mal
tudo é sem remissão
não há um porquê em que se funde o chão
alada a busca do esquecimento
torna-me o passado do depois

sábado, 16 de Maio de 2009

para além



o profundo
colapso e alucinação
a vir ao mundo
em jorros de sede e admiração
intranquila submissão aos elementos da noite
as mãos arremessadas no vazio aquietadas
a firmeza do impossível
fria muralha do início dos tempos
em redor do aqui

Epifania


apareceste-me
visível no reverso de querer
pareceste-me
o que se faz ausente na escuta
desapareci nas correntezas do depois
parturiente decomposição da memória
aos poucos o mundo é uma vertiginosa alegoria do inacabamento
o esquecimento
a agonia da palavra
o ermamento no coração da esperança

Portal


afastamento
o espaço que não há adiante
nem a espera nem a crueza da noite
os passos em antecipação calcinados
a aspereza do tranquilo sopro da quietação no limiar
das promessas
o fim de antes para depois
regresso promissão fatalidade
o imo escuríssimo da claridade
luz exposta aos elementos interiores
a erosão da possibilidade contemplativa do dentro
os acessos em aquiescência compactada
as borboletas sabem do instante a demorada impermanência azul
tal a sorte dos que cavalgam a brevidade

segunda-feira, 13 de Abril de 2009

situação



no verso do aqui
a penumbra e a claridade
em faces opostas do momento
alvura e raridade
a aventura do sem nome

quarta-feira, 8 de Abril de 2009

cada olhar



cada olhar uma despedida
fundura gritante em torno de mim
escalavrada em cada palavra desmedida
em cada aventura naufragada
na persistência das ervas de ser assim
a parede cinzenta do aqui
em espiraladas cintilações de azul concreto
vai ruindo a cada momento
o pensamento em cavalgada
de estrelas e abundância desunido
a vida derramada poucas horas antes de ser outro
fogo fogo e alucinação
a realidade de verdade trespassada

domingo, 5 de Abril de 2009

5 de Abril



um dia
um entre mil
dia 5 de Abril
algo terá de diferente
uma verdade percuciente
rosto evanescente da eternidade
brevidade reflexa e impermanente
talvez o fogo
talvez a ausência de passado
alada inquietude
irrepetível melodia

domingo, 29 de Março de 2009

o Sol


nem desilusão nem aparição
nem a vida a crescer em direcção ao Sol
mas o sul e a quietação dos rumos
toda a vida a transbordar
e a perde-se entre as pedras e no chão poroso
toda a vida sem o que a contenha e lhe dê sentido
seja essa a miragem
e além disso
a completude
essa prontidão de nascer com o Sol
e a saciedade que há na presença da luz

terça-feira, 24 de Março de 2009

luz infantina



é feita de luz a emoção seminal
outonal melodia secreta na Primavera
severa melancolia terminal entoação
dentro à solta

quinta-feira, 19 de Março de 2009

mon(s)tra-se


um rosto
a gosto o mosto das vinhas de dentro
infernia no Agosto de sempre
a infância oclusa aparição parência não proferida
a patência das oliveiras e das preces de fumo e acesos acenos
obscena investidura num si no aqui exposto à consumação dos segredos
é sem enredo a dramática encenação
é todo o mundo e todo o tempo que transparecem
na velação do que se investe
todas as paisagens
todos os muros
as hemorragias da nostálgica partenogénese do Íntimo
tudo
na luz ofuscante do querer-se dar a ver
é um manto e uma nudez sem desejo ou desocultação

segunda-feira, 2 de Março de 2009

prefixo


floriu o horizonte de ter as mãos suspensas
na antecipação do que se perdeu
na garganta do rio naufrágio das palavras
rasgura febre na tarde
e dali o sentido secreto das coisas
em perfume e luz extensa se transmudou
a escrita é uma caixa de ébano
para guardar o que perece
aparecida inquietude
incompleta aparição do fim

domingo, 1 de Março de 2009

Lusofonia: um alerta a levar a sério




Eis um conteúdo de um E-mail que recebi hoje (dá que pensar!):
ATENÇÃO !!!
DIVULGUEM ...

"Uma bela biblioteca digital, desenvolvida em software livre , mas que
está prestes a ser desactivada por falta de acessos.
Imaginem um lugar onde nós podemos gratuitamente:
· Ver as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci ;
· escutar músicas em MP3 de alta qualidade;
· Ler obras de Machado de Assis Ou a Divina Comédia;
· ter acesso às melhores histórias infantis e vídeos da TV ESCOLA e
muito mais.
Esse lugar existe!

O Ministério da Educação brasileiro disponibiliza tudo isso,
basta aceder ao site:

www.dominiopublico.gov.br
Só de literatura portuguesa são 732 obras!
Estamos em vias de perder tudo isso, pois vão desactivar o projecto
por desuso, já que o número de acesso é muito pequeno.
Vamos tentar reverter esta situação, divulgando e incentivando amigos,
parentes e conhecidos, a utilizarem essa fantástica ferramenta de
disseminação da cultura e do gosto pela leitura.
Divulguem para o máximo de pessoas!Obrigado!"

quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

alento




à beira do aqui
no cimo da profundidade
de estar na escuta permanente
a pulsão de dentro para além
queima e transfigura os pensamentos
quimeras de sombra sobre as águas plenas do esquecimento
escuras águas de luz percutidas a espaços regulares
o oceano que circunda as partidas
fundura de vertigem e inquietação
que tira a firmeza a todos os lugares
e a todas as direcções torna navegáveis
até ao paroxismo do colapso dos espaços percebidos
no pleno plissado em que nos encontramos
quando desejamos da vida o que não provámos

terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

elevação



ser um com o sol
ninguém no mar sem naufrágios
tudo o que irrompe de dentro
o espaço sem dimensão
o coração no aberto
o infinito fragmenta-se em madrugadas sem nexo
amplexo de sombra no ventre da luz
o abismo de estar a arder
tudo se transfigura no útero do não-ser

segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

primaveril nostalgia


retorna
a luz
o secreto rumor da seiva
axioma de frescura
imperitura ressurgência
o coração é a abissal fundura
a música evanescente
o princípio sempre presente
a alegria do esquecimento
o regresso
o fim antecipado
a Primavera inclusa na continuação